Ciclo menstrual e musculação: vale treinar de acordo com o ciclo?
Os estudos não dão base para montar a musculação pela fase do ciclo. A maior meta-análise sobre o tema (78 estudos, 1.193 mulheres) encontrou, no máximo, uma queda mínima no desempenho durante a menstruação. Já os sintomas são comuns: entre 6.812 mulheres que treinam, 86,2% relataram cansaço ligado ao ciclo. Por isso o STRONG, se você quiser, deixa mais leves os dias em que a energia cai.
O que é treinar de acordo com o ciclo menstrual
Nas redes, a ideia aparece como *cycle syncing*: cada fase do ciclo ganha um tipo de treino, conforme os hormônios sobem e descem. Só que esses planos partem de um ciclo de manual, de 28 dias. Uma revisão de 2023 chama esse tipo de plano de “uma aplicação arbitrária de periodização ondulatória quinzenal”. Em português claro: um treino que muda de tipo a cada duas semanas.
As fases do ciclo, em poucas palavras
De forma simplificada, a menstruação abre a fase folicular, que vai até a ovulação. Da ovulação até a menstruação seguinte vem a fase lútea. Os artigos científicos também dividem essas fases em trechos, como folicular inicial (os dias de menstruação), folicular tardia (os dias antes da ovulação) e lútea média. Se o seu ciclo não tem 28 dias, uma tabela pronta feita para 28 já começa fora de sincronia com as suas fases.
O que os estudos dizem sobre treino e ciclo menstrual
A meta-análise de McNulty e colegas (Sports Medicine, 2020) concluiu que o desempenho no exercício pode ser trivialmente menor na fase folicular inicial do que em todas as outras fases, ou seja, uma diferença mínima. O efeito combinado foi de −0,06, com intervalo de credibilidade de 95% entre −0,16 e 0,04. Essa faixa inclui o zero, então o resultado também é compatível com nenhuma diferença. A qualidade da evidência foi classificada como baixa.
Em 2023, pesquisadores da Universidade McMaster, no Canadá, e da Nottingham Trent, no Reino Unido, reuniram as revisões já publicadas. Encontraram evidência “escassa, de baixa qualidade e em grande parte inconsistente” de diferenças marcantes entre as fases em força, desempenho e hipertrofia, e concluíram que montar o treino de força a partir das mudanças hormonais do ciclo “não é uma abordagem baseada em evidências”.
O resultado mais favorável à ideia vem de uma meta-análise de 2024 (Niering e colegas) só sobre força máxima, com 22 estudos e 433 mulheres. Ali a fase folicular inicial também foi a menos favorável, e a força pareceu maior na folicular tardia ou na ovulação. Na força dinâmica, a que você usa no agachamento e no supino, o efeito foi pequeno (diferença média padronizada, ou SMD, de 0,14) e veio de apenas 3 estudos. Quinze dos 22 estudos tiveram qualidade baixa ou muito baixa, e a confiança dos autores na evidência é baixa.
| Estudo | Tipo e amostra | O que encontrou | Limitação |
|---|---|---|---|
| McNulty et al., 2020 | Meta-análise, 78 estudos, 1.193 mulheres | Desempenho no máximo trivialmente menor na menstruação (−0,06) | Evidência de baixa qualidade |
| Colenso-Semple et al., 2023 | Revisão de revisões | Diferenças entre fases escassas e inconsistentes em força e hipertrofia | Reúne revisões anteriores, sem dados novos |
| Niering et al., 2024 | Meta-análise, 22 estudos, 433 mulheres, só força máxima | Fase folicular inicial menos favorável; força dinâmica com efeito pequeno (0,14) | Força dinâmica em só 3 estudos; 15 dos 22 com qualidade baixa ou muito baixa |
| Colenso-Semple et al., 2025 | Ensaio controlado, 12 mulheres, fase confirmada por exames de sangue e urina | Síntese de proteína muscular igual na fase folicular tardia e na lútea média | Só 12 participantes; mede a síntese de proteína muscular depois do treino |
| Kissow et al., 2022 | Revisão narrativa | Treinar na fase folicular “possivelmente” supera o da fase lútea | Não sistemática; os estudos de treino em que se apoia foram criticados por não confirmar a ovulação |
| UEFA, 2025 | Consenso, 82 afirmações, método RAND-UCLA | Ligação entre fase e desempenho ou lesão inconclusiva | Feito para o futebol feminino |
Treino na fase folicular e na fase lútea
Treino na fase folicular
Quem defende concentrar o treino de força na fase folicular tem a seu favor uma revisão narrativa de Kissow e colegas (Sports Medicine, 2022), feita sem método sistemático, que diz que esse treino “possivelmente” rende mais do que o concentrado na fase lútea. A revisão de 2023 reexaminou os dois estudos de treino por trás do argumento e considerou os dois falhos no método: um dos problemas é que a ovulação não foi confirmada. Se na segunda semana do ciclo você estiver bem-disposta, o programa continua igual, seja um treino ABC feminino ou outra divisão, com a mesma progressão de qualquer outra semana.
Treino na fase lútea
O ensaio de 2025 da tabela comparou o fim da fase folicular com o meio da lútea, e a produção de proteína no músculo depois do treino de força foi a mesma nas duas fases. Ou seja, esse resultado não dá motivo para trocar o agachamento pesado por um treino leve só porque a ovulação passou.
Como ajustar o treino aos sintomas do ciclo
O levantamento de Bruinvels e colegas (British Journal of Sports Medicine, 2021) ouviu 6.812 mulheres ativas recrutadas pelo app Strava, 892 delas no Brasil, nenhuma usando anticoncepcional hormonal combinado. Alterações de humor ou ansiedade apareceram em 90,6%, cansaço em 86,2%, cólica em 84,2% e dor ou sensibilidade nos seios em 83,1%. Vários autores trabalham para uma empresa que faz um app de ciclo menstrual.
Para os dias de cólica, o guia sobre treinar menstruada traz os ajustes de série e carga, e o de treino na TPM cobre o cansaço dos dias antes da menstruação. Na prática, anote durante alguns ciclos em que dias a sua energia costuma cair. Se, no primeiro dia de menstruação, a barra parecer mais pesada do que na semana passada, esse é o dia de tirar uma série.
Como o STRONG monta os dias mais leves
Nós planejamos dias mais leves, não fases diferentes. É assim que o STRONG planeja, se você ativar essa opção:
- Você responde o quanto a sua energia cai perto da menstruação (“Quase nada”, “Dá para sentir” ou “Muito”), quando (“Nos dias antes de descer”, “Nos primeiros dias de menstruação” ou “Nos dois”) e se isso dura mais de uma semana.
- Com “Dá para sentir”, o app marca 2 dias leves; com “Muito”, 3 dias bem leves. Quando a queda dura mais de uma semana, passam a ser 5 ou 7 dias. Com “Nos dois”, entram dias antes e durante a menstruação, até no máximo 10 seguidos.
- Num dia leve, cada exercício tem uma série a menos e o esforço-alvo cai um nível, com a mesma carga e sem aumento naquele dia. Num dia bem leve, você faz cerca de metade das séries, com cerca de 90% da carga e esforço-alvo RPE 6.
- Um dia de cada lado entra como leve, porque a menstruação pode adiantar ou atrasar um ou dois dias.
- Para os dias de pouca energia, você escolhe: “Treinos mais leves”, “Só superiores” (o treino de inferiores vai para outros dias) ou “Descanso” (a semana é planejada em volta deles).
- Com “Dá para sentir” ou “Muito”, a semana de deload (no app, “semana leve”) fica em volta de cada menstruação prevista, onde você escolher: na semana antes, na semana em que ela começa ou metade antes, metade durante. Com menos de 2 semanas de treino normal desde a última pausa, entra uma semana mais leve (uma série a menos, mesma carga), e duas pausas não ficam seguidas. Com “Quase nada”, não há dias mais leves, mas um deload que já estava para vir passa para a semana da menstruação.
- Com ciclo irregular, não há previsão até você registrar pelo menos 2 ciclos com diferença de até 10 dias entre si. Um ciclo de 27 dias seguido de um de 39 ainda não basta. Até lá, quando você toca em “Minha menstruação começou hoje”, os próximos dias ficam mais leves. Depois disso, o app usa a mediana dos seus últimos ciclos (até 3) e amplia a margem de erro em até 3 dias, conforme a variação entre eles.
- Nos outros dias vale a regra normal de sobrecarga progressiva: quando todas as séries chegam ao topo da faixa de repetições com RPE 8 ou menos, a carga sobe no treino seguinte: 1 kg nos exercícios de superiores e 2,5 kg nos de inferiores.
- Na tela Hoje, “Pouca energia hoje? Deixar mais leve” deixa qualquer treino mais leve, e “Está se sentindo bem? Treinar normal” desfaz um dia leve planejado. Pular um treino durante a menstruação ou na semana leve não deixa nada para compensar.
Os dados do ciclo (início da última menstruação, duração do ciclo e suas respostas sobre energia) ficam no seu celular e não são enviados para nenhum servidor. Dá para mudar qualquer resposta em Configurações, e o plano e os lembretes se atualizam na hora; os dados do ciclo também podem ser apagados.
Quando procurar um médico
Pelos critérios do NHS, o serviço público de saúde do Reino Unido, procure atendimento com urgência se a cólica estiver forte ou pior do que o normal e o analgésico não tiver resolvido.
Marque uma consulta se a menstruação ficar mais dolorida, com mais fluxo ou irregular, se a dor impedir as suas atividades do dia a dia ou se houver sangramento entre uma menstruação e outra. O fluxo intenso também pede consulta quando atrapalha a sua vida: trocar o absorvente a cada 1 ou 2 horas, menstruar por mais de 7 dias, ter coágulos maiores que cerca de 2,5 cm ou deixar de fazer coisas do dia a dia, como exercício, por causa da menstruação. Se a menstruação parar ou ficar irregular numa fase de treino puxado ou de comer menos, fale com um médico. O COI descreve a REDs (deficiência relativa de energia no esporte) como um quadro de problemas de saúde e desempenho causado por comer pouco para a quantidade de treino, e o NHS orienta procurar atendimento depois de 3 ciclos seguidos sem menstruar. No Brasil, o caminho é o ginecologista ou a UBS mais perto de você.
Perguntas frequentes
Cycle syncing funciona?
Os autores da maior meta-análise sobre o tema (McNulty, 2020, 78 estudos) concluem que não dá para criar regras gerais de desempenho ao longo do ciclo e recomendam uma abordagem individual. A revisão de revisões de 2023 vai na mesma linha: o plano deve ser ajustado a cada mulher, e o ciclo entra como um fator entre vários, ao lado de sono, estresse, alimentação e motivação.
Em qual fase do ciclo a mulher tem mais força?
As maiores diferenças aparecem em testes de força isométrica e isocinética, não nos exercícios com barra. Na meta-análise de Niering (2024), a força isométrica teve efeito médio (SMD 0,60, em 7 estudos) e a isocinética, efeito pequeno (0,39, em 5 estudos). Para testar uma carga máxima, escolha um dia em que você se sinta bem, seja qual for a fase.
A TPM atrapalha o treino?
O NHS lista cansaço e oscilações de humor entre os sintomas comuns da TPM. No levantamento de Bruinvels (2021), cada ponto a mais num índice de sintomas do ciclo esteve associado a uma chance (odds) cerca de 9% maior de faltar ao treino ou mudar o que estava planejado (OR 1,09). É uma associação, não prova de causa, e o índice soma todos os sintomas do ciclo, não só os da TPM.
Como saber em que fase do ciclo estou?
No dia a dia, você estima pela data: o primeiro dia da última menstruação abre a fase folicular. Só exames, como os de sangue e urina usados nos estudos, confirmam a fase com precisão. O consenso da UEFA de 2025, feito para o futebol feminino, recomenda acompanhar o ciclo por motivos de saúde: perceber irregularidades e lidar com os sintomas.
Quem toma anticoncepcional precisa ajustar o treino?
Um ensaio de 2025 não encontrou diferença no músculo entre os dias de pílulas ativas e os de pílulas inativas (placebo): em mulheres que tomam pílula, a síntese e a quebra de proteína muscular foram parecidas nas duas fases, em repouso e depois do treino de força. É um único estudo e mede a proteína muscular, não a força nem o desempenho. A escolha do anticoncepcional é conversa para ter com o seu ginecologista.
Fontes
- McNulty KL, Elliott-Sale KJ, Dolan E, et al. (2020). The Effects of Menstrual Cycle Phase on Exercise Performance in Eumenorrheic Women: A Systematic Review and Meta-Analysis. *Sports Medicine*. McNulty et al., Sports Medicine 2020 (meta-análise). Publicado em 13 jul. 2020.
- Colenso-Semple LM, D'Souza AC, Elliott-Sale KJ, Phillips SM. (2023). Current evidence shows no influence of women's menstrual cycle phase on acute strength performance or adaptations to resistance exercise training. *Frontiers in Sports and Active Living*. Colenso-Semple et al., Frontiers 2023 (revisão de revisões). Publicado em 23 mar. 2023.
- Niering M, Wolf-Belala N, Seifert J, et al. (2024). The Influence of Menstrual Cycle Phases on Maximal Strength Performance in Healthy Female Adults: A Systematic Review with Meta-Analysis. *Sports (Basel)*. Niering et al., Sports 2024 (meta-análise). Publicado em 12 jan. 2024.
- Colenso-Semple LM, McKendry J, Lim C, et al. (2025). Menstrual cycle phase does not influence muscle protein synthesis or whole-body myofibrillar proteolysis in response to resistance exercise. *Journal of Physiology*. Colenso-Semple et al., Journal of Physiology 2025 (ensaio controlado). Publicado em 4 dez. 2024 (edição de mar. 2025). Lidos o resumo e os pontos-chave.
- Colenso-Semple LM, McKendry J, Lim C, et al. (2025). Oral contraceptive pill phase does not influence muscle protein synthesis or myofibrillar proteolysis at rest or in response to resistance exercise. *Journal of Applied Physiology*. Colenso-Semple et al., J Appl Physiol 2025 (ensaio controlado). Publicado em 27 fev. 2025. Lido apenas o resumo.
- Kissow J, Jacobsen KJ, Gunnarsson TP, Jessen S, Hostrup M. (2022). Effects of Follicular and Luteal Phase-Based Menstrual Cycle Resistance Training on Muscle Strength and Mass. *Sports Medicine*. Kissow et al., Sports Medicine 2022 (revisão narrativa). Publicado em 2022. Lido apenas o resumo.
- Verhagen E, Ferrer E, da Silva Antero J, et al. (2025). UEFA consensus statement on menstrual cycle tracking in women's football. *BMJ Open Sport & Exercise Medicine*. Consenso da UEFA sobre acompanhamento do ciclo no futebol feminino (2025). Publicado em 21 set. 2025.
- Bruinvels G, Goldsmith E, Blagrove R, et al. (2021). Prevalence and frequency of menstrual cycle symptoms are associated with availability to train and compete: a study of 6812 exercising women recruited using the Strava exercise app. *British Journal of Sports Medicine*. Bruinvels et al., BJSM 2021 (levantamento). Publicado em 16 nov. 2020 (edição de abr. 2021). Lido apenas o resumo.
- Mountjoy M, Ackerman KE, Bailey DM, et al. (2023). 2023 International Olympic Committee's (IOC) consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs). *British Journal of Sports Medicine*. Consenso do COI sobre REDs (2023). Publicado em set. 2023. Lido apenas o resumo.
- NHS. Period pain. NHS: cólica menstrual (em inglês). Revisado em 18 mar. 2026.
- NHS. Heavy periods. NHS: fluxo menstrual intenso (em inglês). Revisado em 19 set. 2024.
- NHS. Missed or late periods. NHS: menstruação atrasada ou ausente (em inglês). Revisado em 12 jun. 2026.
- NHS. PMS (premenstrual syndrome). NHS: TPM (em inglês). Revisado em 18 jun. 2024.
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